Tardiamente descobri a minha vocação… levei cerca de trinta anos a perceber o que queria fazer com a minha vida.
   Apesar de um percurso académico ligado às artes (fotografia e desenho têxtil) tive de agarrar tudo o que viesse à rede para sobreviver. Acabei assim por fazer trabalho chato ao longo da vida, o computador sendo a minha ferramenta de trabalho durante muito tempo.
   Chegou então a crise… Sem poder financeiro, e sendo uma pessoa muito manual, comecei a fazer as coisas que não conseguia comprar. A minha casa está pejada de objectos feitos à mão; candeeiros, almofadas, peças de decoração e até alguma mobília. Sem trabalho mas com muito tempo em mãos, comecei a aprender “coisas” online.
   Não demorou muito até que pensasse em fazer render as minhas habilidades. Pus-me assim a fazer bijuteria, artigos em croché, tricot, etc… Digamos que o sucesso não foi estrondoso. A oferta de produção em massa é tão gira e barata hoje em dia que o artesanato está completamente subvalorizado.
   Apesar de ter compreendido que por ai não havia grande saída, adorei a actividade manual e não queria, de forma alguma, voltar para o computador. Pensei no assunto durante algum tempo e conclui que tinha de criar peças absolutamente únicas, diferentes de tudo, que não se encontrassem em mais lado nenhum. Assim, durante uns meses, criei em segredo, como louca. Até que chegou o momento de testar a receptividade das pessoas ao meu trabalho. Timidamente, comecei a partilha-lo no Facebook e no Instagram. A aceitação foi fantástica, nem podia acreditar.
   As actividades como o tricot, o crochet, as frioleiras, a tecelagem, a feltragem, etc, práticas geralmente femininas, da vida doméstica, eram tradicionalmente destinadas ao fabrico ou decoração de vestuário e roupa de casa. Tendo como matéria-prima fibras, fios e tecidos, uso essas técnicas ancestrais, para criar arte. Para tal, invento e produzo utensílios, misturo técnicas e utilizo-as de forma pouco convencional.
   É um trabalho manual complexo, delicado, moroso, que requer muita paciência e origina um enorme desgaste físico. Uma coisa é trabalhar um bocadinho nos tempos livres, como hobby. Outra é passar doze a catorze horas por dia a esforçar as mãos, as costas, os olhos. Tudo começa a dar de si, a doer. As incapacitantes tendinites são uma ameaça constante. O fim do dia passa-se com as mãos no gelo e a espalhar pomada de arnica, sonhamos com uma massagem e já não fazemos nada sem óculos.
   Apesar de não ser verdade que quem corre por gosto não cansa passo, actualmente, os meus dias e noites nisto. Durante o sono surgem-me ideias ou resolvo problemas técnicos. De dia ponho-as freneticamente em prática. O meu cérebro não para e as minhas mãos também não. De repente, trabalhar deixou de ser trabalho e passou a ser gozo. É maravilhoso, nunca o tinha sentido antes.
   Cá estou eu então, a começar a vida depois do meio século, feliz, entusiástica, sentindo-me como se estivesse apaixonada pela primeira vez. :)




   I’m a late bloomer… it took me about thirty years to figure out what I wanted to do with my life.
  Despite my education being an artistic one (photography and textile design) I had to take whatever came my way, to survive. So I’ve done dull work all my life, the computer being my working tool for a long time.
   Then came the financial crisis…Not being able to afford what I needed, and being a very crafty person, I started making the things I wanted and couldn’t buy. My house is full of homemade objects; lamps, pillows, decoration items and even some pieces of furniture. Without work but with a lot of spare time, so I started to learn “things” online.
   It wasn’t long before I thought about capitalizing on my skills. I started making jewelry, crocheted and knitted items, etc… I didn’t have much success. The mass production offer is so great and inexpensive nowadays that artisanal handicrafts are completely undervalued.
   Even though I understood that I wouldn’t go far that way, I loved the manual activity and I really didn’t want to have to go back to my computer. I thought about it for some time and concluded that I had to create absolutely unique pieces, different from everything, something that you couldn’t find anywhere else.
So, for a few months, in secret, I created like crazy. Then came the time to assess people’s response to my work.  Timidly, I started to share it on Facebook and Instagram. People’s reaction was amazing, I could barely believe it.
   Activities such as knitting, crocheting, tatting, weaving, felting, etc., generally female practices of domestic life, were traditionally intended for the manufacture or decoration of clothing and household linen.
With fibers, yarn and fabrics, as raw material, I use these delicate and complex ancestral techniques, to create art. To do so, I invent and produce utensils, mix techniques and use them in unconventional ways.
   It is a complex, delicate, time-consuming manual work, that requires a great deal of patience and causes enormous physical wear. It's one thing to do some little projects on our free time, as a hobby. Another is to spend twelve to fourteen hours a day straining your hands, back and eyes. Everything begins to give in, to hurt. Disabling tendinitis is a constant threat. The end of the day goes by with our hands on ice and spreading arnica ointment, we dream of a massage and don’t do anything without our glasses anymore.
   Although it is not true that those who run for pleasure do not tire, presently, all my days and nights are dedicated to this. I have ideas or solve technical problems in my sleep. During the day, I put them frantically into practice. My brain does not stop and my hands neither. Suddenly, work ceased to be work and became pleasure. It's wonderful, never felt it before.
   So here I am, starting my life after fifty, happy, enthusiastic, felling like if I was in love for the first time. ;)